segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chile

"A vida é uma viagem a três estações: ação, experiência e recordação"


🚗 Janeiro de 2010 — Na estrada rumo ao Chile

Início de escrita: 11 de janeiro de 2010

Há datas que parecem nos escolher. O dia 11 sempre foi assim pra nós — um número que marca começos, travessias, recomeços. E foi num 11 que resolvi abrir este diário de viagem, onde quero registrar não apenas os lugares que veremos, mas também os sentimentos que nos movem.

Eu, Naraiana Nunes de Liz Freitas, 33 anos. Ele, Emerson de Fraga Freitas, 34.
Duas almas parecidas e diferentes — e é nesse encontro que mora o amor.

“Amor não é se envolver com a pessoa perfeita,
mas enxergar o outro por inteiro — com luzes e sombras.
O amor só é lindo quando encontramos alguém
que nos transforma no melhor que podemos ser.”

Talvez por isso esta viagem tenha nascido: uma busca por transformações interiores.
Viajar, afinal, é se deslocar por fora e por dentro.
Queremos descobrir o novo — e até o que não queremos.
É louco começar um diário sem saber o que virá, mas há uma beleza nessa incerteza.

Somos ímpares, mesmo quando estamos em pares.

A partida

20 de janeiro de 2010.
Saímos de Porto Alegre ao amanhecer, por volta das 5h.
Na noite anterior, o cansaço e a ansiedade se misturaram — parecia que não falávamos a mesma língua. Talvez fosse só nervosismo de quem está prestes a viver algo grande.

O carro já estava carregado desde a véspera.
De manhã, bastou o chimarrão, o abraço e o silêncio — aquele silêncio que fala de medo e de felicidade ao mesmo tempo.

A estrada nos esperava.
E nós fomos — com o coração apertado e aberto, prontos para o desconhecido. 🌄





 

🚗 1º Dia – 20 de janeiro de 2010

Porto Alegre (BR) → Santa Fé (ARG) – 1.085 km de descobertas

Saímos de casa, na Rua Guilherme Alves, com o coração acelerado e o porta-malas cheio de sonhos.
O plano era simples — seguir pela BR-290, cruzar a fronteira em Uruguaiana, entrar na Argentina e chegar até Santa Fé.
No papel, o roteiro parecia claro: trechos, quilometragens, pedágios e horários.
Na prática… a estrada sempre tem vontade própria.

O começo da jornada

Partimos às 5h da manhã, com o céu ainda sonolento. O chimarrão foi o primeiro companheiro da viagem.
Entre o medo e a felicidade, reinava um silêncio bom dentro do carro — aquele que diz: “Estamos mesmo indo?”

Seguimos pela BR-290, cortando o interior gaúcho. O asfalto parecia infinito, pontuado por pedágios, rotatórias e paisagens que se repetiam como um mantra.

Cruzamos a Ponte Internacional Agustín Justo – Getúlio Vargas, rumo à Argentina.
A travessia, confusa e desorganizada, fez o coração bater mais forte. Bastou apresentar as identidades e recebemos um papel simples — nossa permissão para entrar no país vizinho.

Logo adiante, um guarda nos fez sinal para parar.
O medo veio rápido, mas o sorriso dele foi ainda mais veloz. Explicou, gentilmente, que as luzes altas eram obrigatórias nas estradas argentinas e nos desejou boa sorte.
Seguimos, aliviados, sob uma estrada interminável e em reforma.

O cansaço e o abrigo

Depois de mais de 1.200 km, o corpo já pedia pausa. Paramos em San Francisco, onde o acaso nos guiou até um posto de gasolina. Lá compramos um guia da Argentina (que se tornaria nosso mapa de tesouros por dias) e perguntamos onde poderíamos dormir.

A resposta veio simples: “Hotel Menfis.”
O cansaço era tanto que o luxo não importava — queríamos apenas uma cama e silêncio.

Mas antes, fome.
Saímos para procurar um “comedor” — os restaurantes locais. As ruas pareciam desertas, repletas apenas de panaderias, onde o povo se contentava com café e empanadas.
Nós, porém, queríamos carne.

Depois de algumas voltas, encontramos um comedor com ar-condicionado e, milagrosamente, aceitava cartão.
Ali brindamos com duas garrafas de cerveja Quilmes — gelada, dourada e merecida.

Pedi um entrecot com ovo e cebola, acompanhado de arroz com creme de queijo.
Emerson escolheu um “churrasco completo”, que se revelou uma deliciosa ala-minuta com dois ovos.
As saladas eram caríssimas — “coisa rara por aqui”, pensamos rindo.

E quando a comida chegou… silêncio. Aquele silêncio de quem prova e sabe que vai se lembrar pra sempre.
Brindamos novamente — à estrada, à coragem e ao amor que nos trouxe até ali.

Voltamos ao hotel sob o calor da noite. Nem o sorvete que prometemos saiu — o sono venceu.
Dormimos como pedras, embalados pelo cansaço e pela certeza de que a viagem realmente havia começado. 🌙✨

💡 Dica do dia:
Leve lanche, água e paciência. As estradas argentinas têm longos trechos em reforma e poucas paradas. E lembre-se: as luzes altas são obrigatórias!







🌵 2º Dia – 21 de janeiro de 2010

Santa Fé → Mendoza — 900 km de estrada, silêncio e sorte

O roteiro de hoje era outro. Como no dia anterior andamos um pouco além do planejado, Mendoza estava mais perto — ou assim parecia.

Acordamos às 7h30, prontos para pegar a estrada, mas o chuveiro resolveu pregar uma peça: não funcionava. E, convenhamos, depois de tanto tempo dentro do carro, a gente precisava de um bom banho pra existir de novo. Logo resolveram o problema e seguimos.

O café da manhã foi um capítulo à parte. Eu, acostumada com os cafés fartos do Brasil — frutas, pães, queijos —, fiquei surpresa quando serviram um croissant, duas galletas e uma xícara de café com leite fortíssimo. O Emerson, mais adaptado, só ria e dizia: “É assim por aqui.”
Comemos felizes, porque na estrada até o simples ganha sabor.

Antes de sair rumo a Mendoza, decidimos passar no supermercado para comprar mantimentos — um pouco de gelo, uns petiscos, o básico. Mas o mercado era uma cena curiosa: poucos produtos, prateleiras meio vazias, tudo jogado. Gelo, então, nem pensar.
Mas uma coisa chamou nossa atenção: os vinhos! Garrafas que no Brasil custavam caro aqui saíam por seis reais. Foi impossível não sorrir com essa descoberta.

Seguimos viagem. A estrada era um deserto — nada vezes nada. O horizonte parecia sempre o mesmo, e o calor era um personagem à parte.

Lá pelas tantas, o ponteiro da gasolina começou a baixar.
Olhei pro Emerson, ele olhou pra frente — aquele silêncio de quem sabe que a reserva vai acender. E acendeu.
No meio do nada, nenhum posto, nenhum carro, nenhum som.
Meu coração acelerou. Lembrei do meu pai e da mania dele de carregar um galão de gasolina e uma mangueirinha.
“Se eu tivesse uma mangueira, dava um jeito”, pensei, já imaginando pedir ajuda a algum caminhoneiro imaginário.

De repente, um pequeno milagre: um policial parado à beira da estrada.
Emerson foi falar com ele. O homem, gentil, explicou que não tinha como ajudar — não havia jeito de passar gasolina de um carro para outro. Tentamos improvisar cortando uma garrafa plástica, mas não funcionou.
Ele nos disse para seguir devagar, que o posto estava a 15 km, e prometeu vir atrás caso não conseguíssemos.

Seguimos em silêncio.
Aquela parte da viagem foi uma prece sobre rodas.
Quando vimos a placa dizendo “7 km”, já respiramos melhor.
E então — como um oásis no deserto — o posto apareceu. Rimos alto, aliviados, agradecendo ao nosso carrinho, que resistiu firme até o fim.

Foi ali que ele ganhou nome:

O Guerreiro.
Em homenagem à moto La Poderosa do Ernesto Guevara.

Abastecidos e felizes, seguimos rumo a Mendoza.
A cidade nos recebeu verde, viva, cheia de árvores e bares. Linda demais!
Começou a saga do hotel — rodamos, rodamos e todos estavam lotados.
Já era noite quando encontramos um que parecia seguro, com garagem e preço um pouco mais alto, mas aceitável. A banheira antiga no quarto foi um presente!

Depois do banho, saímos para explorar. Mendoza é encantadora: ruas largas, pessoas educadas, comércio animado.
Queríamos um bom jantar, de preferência com massa e vinho.
Encontramos um restaurante chamado Mastr... (o nome se perdeu, mas o sabor não). Pedimos sorrentines e capelete, acompanhados de um vinho maravilhoso.

Sem exagero: foi uma das melhores refeições da viagem.
Comemos sorrindo, brindamos com vinho e com a sorte. Tudo era bom — a comida, o preço, o momento.

Voltamos para o hotel flutuando, entre o sono e o encanto.
Dormimos com o corpo leve e a alma cheia.

E o Guerreiro, lá embaixo, descansava também — merecidamente. 🚗

 

🍇 3º Dia – 22 de janeiro de 2010 (sexta-feira)

Mendoza — entre vinhos, risadas e sinos

Acordamos cedo, o sol ainda dourando as montanhas de Mendoza. Pegamos o carro, mapa na mão e aquele entusiasmo de quem vai atrás de bons vinhos — e de boas histórias.

Nosso primeiro destino foi a Vinícola Trapiche, uma das mais tradicionais da região. Fizemos o passeio, aprendemos um pouco sobre o processo e, claro, degustamos vinhos maravilhosos. Difícil não se encantar com cada gole.
Mas, como tudo que é famoso, os preços também acompanhavam a fama — e ali o vinho já tinha gosto de exportação.

Depois da visita, resolvemos fazer o que mais gostamos: nos perder um pouco. Entramos por estradinhas de terra, com o mapa meio amassado no colo e o riso leve no rosto. Queríamos conhecer vinícolas menores, mais familiares, daquelas em que o dono ainda serve o vinho e conta a história de cada garrafa.

Foi assim que encontramos uma pequenina, antiga e encantadora. Para ser atendido, era preciso tocar um sino na porta — e esse detalhe já fez tudo valer a pena.

O som do sino ecoou e logo apareceu um senhor sorridente, nos recebendo como velhos amigos.
Provei o vinho, olhei para o Emerson e dissemos juntos: “É esse.”

Compramos algumas garrafas, mais pelo carinho do gesto do que pelo preço.
Saímos de lá com o carro mais cheio e o coração também.

Porque viajar é isso — descobrir que o melhor vinho, muitas vezes, não é o mais caro, mas aquele que vem acompanhado de uma boa conversa e um sorriso sincero. 🍷💛





Entre azeites e risadas

Depois das vinícolas, seguimos estrada afora rumo a uma fábrica de azeite de oliva — curiosos para entender como aquele ouro líquido nascia.

Chegamos a uma pequena produção chamada “Pankar...” (o resto do nome se perdeu no tempo, mas o sabor ficou).
Lá, nos receberam com simplicidade e generosidade. Fizeram uma degustação de azeite com pão fresco e tomates secos — um espetáculo à parte.
O aroma era intenso, o sabor suave. Claro que compramos algumas garrafas, afinal, os preços eram ótimos e o encanto, impossível de resistir.

Passeamos mais um pouco pelas redondezas, deixamos o tempo passar devagar, e então voltamos ao hotel para descansar.
À noite, mesmo cansados, não resistimos e voltamos ao mesmo restaurante da véspera — aquele das massas e dos vinhos bons.
Repetimos o ritual: prato saboroso, taça de vinho e olhares cúmplices.
Mas o corpo já pedia pausa. Não chegamos ao final da garrafa.

Voltamos para o hotel rindo, meio tontos de cansaço e alegria.
Dormimos com a sensação boa de quem está vivendo exatamente o que sonhou: dias simples, cheios de sabor e descoberta. 🌙🍷







  

4º Dia – 23 de janeiro de 2010 (sábado)

Mendoza → Uspallata → Puente del Inca – 200 km de pura emoção

Este caminho… não tem explicação.
É daqueles que a gente tenta descrever, mas as palavras parecem pequenas demais.
Cada quilômetro percorrido era uma nova paisagem, um novo arrepio, uma nova forma de sentir o mundo.

Colocamos uma trilha sonora de tirar o fôlego e seguimos em silêncio.
Um silêncio cheio — não de ausência, mas de presença.
Era como se cada um dissesse ao outro, sem precisar falar:

“É isso.
É isso que é o amor.”

Em certo momento, me vi chorando — de emoção e de uma tristeza bonita, daquelas que misturam admiração e dor.
Olhei as montanhas, as rochas imensas, e pensei no quanto o ser humano invade, fere e modifica o que é perfeito por si só.
A natureza ali, grandiosa e intocável, nos fazia sentir tão pequenos.

Foi então que, enquanto subíamos a estrada, começou a tocar no rádio o tema de “Forrest Gump”.
A música preencheu o carro e o coração.
O cenário, o som e o sentimento se fundiram num instante que jamais esquecemos.

Estávamos em estado de graça.
Só nós, a estrada e o mundo nos atravessando.











Aconcágua e Puente del Inca – onde o ar é fino e o coração é imenso

No meio da estrada, resolvemos parar para almoçar — e que lugar! Vista de cinema, vento leve e fome de aventureiro.
Pedi um bife delicioso, suculento, daqueles que parecem temperados com o próprio cheiro da montanha.
Já o Emerson… pediu frango. E, coitado, estava um horror. Rimos muito — porque na estrada é assim: às vezes o tempero é a paisagem.

Seguimos viagem e logo chegamos ao Aconcágua, imponente, altivo, silencioso.
Fomos com o carro até onde era possível e depois seguimos a pé.
A cada passo, o ar ficava mais rarefeito e o ventinho mais frio, mas também mais puro.
Era como se o mundo se encolhesse e a alma se expandisse.

Quando finalmente chegamos ao mirante, paramos.
Ficamos ali, em silêncio, olhando a montanha — a maravilha do Aconcágua diante de nós.
Não há palavra que descreva. É grandioso demais para caber em vocabulário.

Seguimos adiante até a Puente del Inca, um lugar que parece saído de outro tempo.
A natureza ali desenhou pontes, cores e formas que o homem jamais seria capaz de repetir.
Tiramos muitas fotos, gravamos vídeos, mas logo percebemos:
nenhuma imagem daria conta do que estávamos sentindo.

O que ficou não foi o registro — foi o arrepio.
O tipo de lembrança que não se guarda na câmera,
mas no coração. 💛












Cristo Redentor dos Andes – onde o frio encontra a alma

Seguimos viagem em estado de graça, com aquela sensação boa de quem quer mais, mesmo depois de tanto.
A estrada, no entanto, estava difícil — muitos trechos em reforma, lentos e cheios de poeira.

Foi então que vimos uma placa: Cristo Redentor.
E, como bons aventureiros, não resistimos.
Viramos o carro e decidimos subir para ver de perto.

A estrada era de chão batido e muito íngreme.
Em alguns momentos pensamos em desistir — muita gente voltava, o vento soprava forte, o carro tremia nas pedras. Mas seguimos.
Subimos até 4.000 metros de altitude. A cada curva, a montanha nevada se aproximava e o ar ficava mais fino, o frio mais cortante.
Ficamos dentro do carro, vidros fechados, porque a poeira tomava conta de tudo.

Quando finalmente chegamos ao topo…
Lá estava ela: a neve.
Parecíamos duas crianças em dia de festa.
Saímos do carro correndo, rindo, tentando registrar tudo.

O frio era de verdade — o tipo que morde os dedos.
Peguei um casaquinho no porta-malas, mas não adiantou. O Emerson, teimoso, quis “sentir o frio” de perto.
Corremos de um lado para o outro tirando fotos, rindo feito loucos.
De um lado, o Chile; do outro, a Argentina; e no meio, nós, atordoados de beleza.

Toquei o gelo pela primeira vez.
O Emerson escreveu o nome dele na neve.
As pontas dos dedos estavam roxas, as mãos dormentes — mas o coração, aquecido como nunca.

Há lugares que nos deixam sem fala,
e outros que nos fazem falar por dentro.
Este foi um deles.














Entre fronteiras, caracoles e cansaço: rumo ao Chile

Saímos dali com uma sensação de alívio e felicidade tão grande que parecia que o coração ia explodir.
Nos olhamos, nos beijamos e agradecemos um ao outro por estarmos ali.
Nem acreditávamos no que tínhamos acabado de viver — era um misto de conquista e encanto.

Descemos a serra e seguimos direto rumo ao Chile.
Na fronteira, a burocracia nos esperava: papéis e mais papéis, formulários que pareciam não ter fim.
Entregamos os documentos e, claro, veio a revista do carro.

Confesso que o momento foi meio tenso.
Tínhamos no porta-malas vinho, azeite de oliva, batatas fritas e chocolates — uma verdadeira feira rodante.
Enquanto o Emerson conversava com o fiscal, eu ficava mostrando a papelada, torcendo para que tudo corresse bem.

O guarda começou a revistar tudo — até as minhas roupas!
Mas, no fundo, foi simpático: não levou nem os chocolates nem o Toddy.
Ainda brincou dizendo que o carro tinha batata frita demais e que ia confiscar o chocolate brasileiro.
Rimos, ele desejou boa viagem e sorte, e seguimos adiante.

Pegamos então o trecho dos Caracoles, já em direção a Viña del Mar.
Achávamos que seria algo imenso e espetacular — e realmente era bonito —, mas chegamos à conclusão de que a Serra do Rio do Rastro não perde em nada pra ela.

A estrada estava em obras, o que tornou o caminho cansativo.
Já era fim de tarde, e o corpo pedia pausa.
Parecia que Viña del Mar nunca chegava.

Quando finalmente chegamos, a cidade estava fervendo — muito movimento, trânsito caótico, hotéis lotados.
Linda, chique, cheia de vida, parecia a Europa.
Mas nós só queríamos uma cama.

Cansados e um pouco nervosos, resolvemos tentar sorte em Valparaíso, ali pertinho.
Mas o contraste foi grande: a cidade era suja, desorganizada e, àquela hora, meio assustadora.
Pegamos uma rua errada, subimos uma ladeira perigosa e, quando conseguimos, demos meia-volta e saímos dali o mais rápido possível.

Às vezes, a beleza de uma viagem não está em chegar —
mas em sobreviver ao caminho. 🌌









5º Dia – 24 de janeiro de 2010 (domingo)

De Valparaíso a Santiago – o banho mais esperado do mundo

Olhamos o mapa e vimos que Santiago ficava a apenas 120 km dali.
Naquele momento, parecia perto.
Resolvemos ir.

Mal sabíamos que seriam os 120 km mais longos da viagem.
O corpo já não obedecia, os olhos ardiam, e o único pensamento era: “um banho e uma cama, por favor.”
A estrada parecia interminável, o relógio já marcava quase uma da manhã.

Quando finalmente chegamos a Santiago, começamos a rodar pela cidade — mas não víamos uma única placa de hotel.
O cansaço era tanto que parecia que nossos olhos tinham apagado junto com as luzes da rua.

Paramos alguns taxistas, que indicaram um hotel “bom e com garagem” — e aquilo bastava.
Fomos direto pra lá, sem pensar em preço, luxo ou localização.

Queríamos apenas dormir em paz.

O hotel era elegante, daqueles que a gente entra meio sem acreditar que vai ficar.
Mas, naquela altura do campeonato, pagaríamos qualquer preço pelo descanso.

Subimos para o quarto em silêncio — eu e o Emerson já não tínhamos nem força pra conversar.
Entrei no chuveiro e deixei a água cair como bênção.

Foi o melhor banho da viagem.

A cama, imensa — 3 metros por 3, parecia coisa de cinema.
Deitei e dormi.
Na verdade, acho que adormeci antes mesmo de deitar.

Naquela noite, o sono foi mais que descanso — foi recompensa.


                            

🌞 5º Dia – 24 de janeiro de 2010 (domingo)

Primeira manhã em Santiago – café, metrô e mirantes

Acordamos às 9h, depois de um sono santo.
Descemos para o café e, graças a Deus, era maravilhoso!
Aqui no Chile eles não têm o costume do nosso café colonial — frutas, pães, queijos e exageros que a gente tanto ama —, mas aquele estava perfeito.
Foi o primeiro momento realmente calmo da viagem: sem estrada, sem pressa, só o prazer do pão quentinho e do café com gosto de sossego.

Depois do café, resolvemos passear por conta própria, sem guia, sem planos, só com a vontade de explorar.
Pegamos o metrô de Santiago, limpo, organizado e silencioso, e seguimos rumo ao bairro Santa Lucía.

Visitamos o Cerro Santa Lucía, um dos lugares mais bonitos da cidade.
Subimos devagar, apreciando os jardins, as escadarias e as fontes.
Lá de cima, a vista era de tirar o fôlego — Santiago se espalhava aos nossos pés, imensa, viva e cercada pelas montanhas.

Ficamos um tempo ali, observando, respirando o ar fino da cordilheira e deixando o olhar passear.

Era domingo, e o mundo parecia em paz. 🌿
















🌇 5º Dia – continuação

Domingo em Santiago — entre risadas, calor e descobertas

Ao sair do Cerro Santa Lucía, perguntamos a uma policial se o Mercado Público era muito longe.
Ela respondeu sorrindo que não, que podíamos ir a pé — os táxis eram muito caros.
Então lá fomos nós, debaixo de um sol de rachar, caminhando animados.

No meio da quadra começamos a rir: o nosso hotel era praticamente do lado do Mercado!
Nem precisava ter pegado metrô pra ir ao Santa Lucía — estávamos hospedados do ladinho.
É louco estar num lugar novo, caminhar quilômetros e depois descobrir que o destino estava logo ali, esperando.

O Mercado era o que todo mercado é: cheiro de peixe fresco, ervas penduradas, vozes misturadas.
Enquanto andávamos, os garçons dos restaurantes nos chamavam de longe:

“¡Hola, brasileños!”
Bastava olhar pra nossa cara pra saber — a gente denunciava o sotaque só com o sorriso.

Não comemos ali, resolvemos continuar explorando a cidade.
Pegamos novamente o metrô e seguimos para o Cerro San Cristóbal.
Compramos o ingresso e subimos num trenzinho íngreme e encantador, que parecia escalar a ladeira.
A sensação era de que o carrinho ia tombar pra trás a qualquer momento — pura adrenalina!

Lá em cima descobrimos que o teleférico estava fechado por questões políticas.
Na hora bateu uma pontinha de decepção, mas o dia estava tão bonito que nada abalava nosso bom humor.

Descemos e, com o calor apertando, paramos numa galeria elegante para almoçar.
Entramos numa cervejaria charmosa, fresquinha e acolhedora.
Pedimos o menu do dia: de entrada, uma saladinha, um bolinho de atum e uma sopinha de legumes deliciosa.

Quando chegou o prato principal, a surpresa: esperávamos uma chuleta de vacuno, mas veio carne de porco com repolho refogado.
Claro que eu comi (adoro!), e o Emerson torceu o nariz — ele tem pavor de repolho refogado.
Mesmo assim, a comida estava ótima.

De sobremesa, veio algo chamado “Mote con huesillos” — uma espécie de chá de pêssego com um pêssego inteiro e grãos de trigo cozidos.
Todo mundo por ali comia aquilo.
A nossa, porém, veio morna, e o garçom disse que o certo era bem gelada.
Fiquei com vontade de perguntar por que então ele não serviu gelada, mas deixei pra lá — a vista e o riso valiam mais que a temperatura da sobremesa.

Depois do almoço, resolvemos voltar a pé para o hotel.
E, adivinha? Mais um motivo pra rir: o hotel também era perto dali!
Já tínhamos tomado umas cervejas, o que deixava tudo ainda mais engraçado.

No caminho, paramos numa feirinha e compramos alguns porta-copos.
Depois, um sorvete horrível — mas que serviu pra refrescar.
Nosso hotel ficava no bairro La Moneda, onde está o Palácio do Governo.
A região era linda, segura e cheia de praças bem cuidadas.

Mais tarde, descansamos um pouco, preparamos um chimarrão e fomos caminhar pela praça em frente ao Palácio.
A cidade respirava calma, mesmo sendo tão grande.

À noite, paramos numa lanchonete para comer um sanduíche e tomar um café.
Achamos caro, então pedimos o mais simples — e estava ótimo.
Voltamos pro hotel, baixamos as fotos e mandamos notícias pra família.

O Emerson ficou no computador pesquisando o caminho para o dia seguinte.
Queríamos seguir sem rumo certo, mas com uma direção em mente.
Nosso destino seria Isla Negra, para conhecer a casa do poeta Pablo Neruda.

No outro dia, lá fomos nós.
Quando chegamos, o portão fechado: segunda-feira, não abria.
Deu uma pontinha de tristeza, mas tudo bem — olhei de longe, tirei fotos, senti o vento e o cheiro do mar.
O Oceano Pacífico estava ali, imenso, azul e livre.
Passeamos por perto e deixamos o dia seguir.

Às vezes, o que parece dar errado é só o jeito da vida de nos mostrar outro tipo de beleza. 🌊





 🌙 6º Dia – 25 de janeiro de 2010 (segunda-feira)

Santiago → Chillán — entre estradas longas e vinhos curtos

Pegamos o carro cedo e seguimos direto rumo a Chillán, conhecida por suas águas termais.
A ideia era relaxar, depois de tantos dias na estrada.

Rodamos muito — o caminho parecia não ter fim.
Tínhamos tomado apenas um café reforçado antes de sair, mas em certo ponto paramos para dar uma esticada e respirar um pouco.
O cansaço já começava a pesar.

Chegamos em Chillán tarde da noite.
E, pra ser sincera, bateu uma decepção: as piscinas termais eram pequenas, sem graça e, pra completar, já estavam fechadas.
O horário de funcionamento era das 9h às 17h — e, claro, chegamos depois disso.

Decidimos procurar um lugar pra dormir e aproveitar o outro dia com calma.
Encontramos um camping, mas o preço era quase o mesmo de uma cabana linda, com tudo de primeiro mundo.
Nem pensamos duas vezes: ficamos com a cabana.

Pra sorte do Emerson (e mérito meu 😄), sou uma mulher prevenida — tinha levado uns miojos, bolachas e outras coisinhas.
Colocamos o vinho pra gelar, preparei uma massa com salada maravilhosa, e jantamos na varanda, rindo da vida.

O céu estava limpo, o ar leve e o silêncio bonito.
Foi um fim de dia simples, mas perfeito — daqueles que a gente guarda pra lembrar que felicidade também é isso: um prato improvisado, um vinho barato e uma companhia certa.

Fomos dormir embalados pelo vento e pelo cansaço bom da estrada.

O vinho fez muito sucesso. E a noite também. 🍷✨








🌄 7º Dia – 26 de janeiro de 2010 (terça-feira)

De Chillán a Puerto Varas — com o coração em Frutillar

Saímos de Chillán logo cedo, rumo a Puerto Varas, com parada em Frutillar.
A viagem foi longa, mas a cada quilômetro o cenário ficava mais bonito — montanhas, lagos, vento frio e um céu que parecia pintado.

Quando chegamos a Frutillar, a emoção tomou conta.
Ao descer a rua principal, o que se via era de tirar o fôlego:

o vulcão Osorno ao fundo, o lago espelhando o céu e aquela sensação de paz que dá vontade de ficar ali pra sempre.

A cidade é um encanto.
Estava se preparando para um campeonato de pesca desportiva, por isso estava cheia.
Paramos em várias cabanas para tentar vaga — todas lotadas.
Encontramos uma, linda, mas caríssima.
Rimos, suspiramos e seguimos viagem.

Frutillar parece uma cidade de boneca.
Tem algo de conto de fadas nas casinhas, nas flores nas janelas, no capricho dos detalhes.
A colonização alemã está em cada esquina, e é impossível não se encantar — eles realmente sabem transformar um lugar em poesia.

Seguimos então para Puerto Varas.
Já era noite, e aqui o escuro demora a chegar — anoitece quase às nove e meia.
Rodamos um pouco até encontrar uma cabana simples e barata, que parecia um abraço depois da estrada.

Ainda bem que havíamos passado antes no supermercado:
compramos massa, salada e um vinho maravilhoso.
Jantamos com calma, rindo do frio e das histórias do dia.

Na hora do banho, claro, um detalhe pra lembrar: o chuveiro não parava na parede!
Tive que tomar banho segurando o chuveiro com uma mão e me lavando com a outra — um desafio e tanto.
Mas tudo bem.
Estávamos cansados, felizes e no sul do Chile — o que mais poderíamos querer?

Deitamos e dormimos sob o barulho do vento gelado,

com a alma aquecida pela beleza e pela estrada. 🌙🍷


☀️ 7º dia mais um (o número oito não funciona aqui no PC 😄) – 27 de janeiro de 2010 (quarta-feira)

Do sol em Puerto Varas ao frio do vulcão Osorno

Acordamos muito cedo — o sol raiva na janela, chamando a gente pra viver o dia.
Fizemos um belo café e partimos rumo a novas aventuras.

Sabíamos que aquele dia seria especial.
Quando o sol bate no rosto e parece dizer pra gente “olha o mundo, olha o presente que é existir”, é porque Deus anda preparando algo ainda mais fascinante.

Passeamos um pouco por Puerto Varas e seguimos até Ensenada.
Na estrada, de longe, o vulcão Osorno já se mostrava.
Paramos pra tirar fotos, empolgados, até que — do nada — um enxame de abelhas malucas apareceu.
Foi um corre-corre! Entramos no carro às gargalhadas, rindo tanto que mal conseguíamos respirar.
As abelhas vieram sem pedir licença!

Seguimos viagem, e quanto mais subíamos, mais o vulcão se aproximava e mais a paisagem se tornava um milagre.
Paramos em um mirante pra tirar fotos.
Algumas pessoas olharam nossa placa e perguntaram:

“Vocês são de Porto Alegre? Vieram de carro?”
E nós, cheios de orgulho:
“Sim! Nosso Guerreiro já rodou mais de 4.000 km!”

Os bichinhos insistiam em nos seguir — até que uma mulher explicou que roupas escuras os atraíam.
Colocamos blusões claros e seguimos subindo.

Quando chegamos à parte mais alta, veio uma mistura difícil de descrever:
frio na barriga, vontade de chorar, de gritar, de agradecer.
Não existem palavras suficientes pra caber o que sentimos ali.

Pegamos o teleférico e subimos até o ponto mais alto.

“Ai, meu Deus!” — é tudo o que consegui dizer.
Porque não há dicionário que explique o que é estar lá em cima.

Ao descer, começamos a caminhar e, de repente, viramos crianças.
A vontade era de se desprender de tudo — das amarras, das certezas, do peso do mundo.
Ali, parecia que Deus estava mais perto da gente.
A gente não precisava dizer nada — só olhar um pro outro e saber.

De repente, avistei algo no meio da neve e gritei:

“Emerson, olha! Um celular!”
Pensei: “Além de estar aqui no topo do mundo, ainda acho um celular, rsrsrsrs!”
Mas logo esquecemos — havia coisa muito mais interessante pra ver.

Corremos, tiramos fotos, e lá fui eu, de melissinha no gelo, me sentindo a Barbie indo pro vulcão!
O pé afundava na neve, depois na areia preta… e tudo era lindo demais.
O frio do ar misturado com o calor da alegria.
Era impossível conter o riso — e o arrepio.

“É como se o amor tivesse virado paisagem.”

Relato do Emersonnnnnnnnn:

“Não tínhamos vontade de ir embora…”

E não tínhamos mesmo.

Seguimos o caminho em direção ao Salto de Petrohué, outra maravilha da natureza.
Uma cachoeira de água azul intensa, que parecia saída de um sonho.
Fizemos uma trilha no meio da mata — e lá estavam elas de novo, as abelhas!
Perguntamos o nome daquelas criaturas; o guia respondeu, mas esquecemos na hora — só lembramos que a picada era “fuerte”.

Tiramos muitas fotos. O lugar era fascinante.
Em um momento de silêncio, peguei uma moeda de 10 pesos e pensei em agradecer.
Queríamos pedir bênçãos pelas pessoas que amamos, desejar coisas boas, deixar o que não serve ir embora.
Vimos outros visitantes jogando moedas na água e decidimos fazer o mesmo.

“Na correnteza, tudo que é bom se renova,
e tudo que pesa vai embora.”

Lançamos a moeda na cachoeira e seguimos, leves, rumo ao Lago de Todos os Santos.
Estacionamos o Guerreiro e pegamos um barquinho com motor — o vento frio no rosto, o coração quente de alegria.


2 comentários:

Naianara disse...

Dia 23 de janeiro de 2012, hora de chegada no Aeroporto 19h09, estávamos eu, eu, o emerson, o emerson, a soraia, a soraia e a Nana com todo a sua paciência, eramos 6 geminianos enlouquecendo a nervosissima Nana. Uma hora depois eu estava escrevendo uma mensagem pra eles quando ao mesmo tempo recebi uma dela, a sintonia é muito grande, tenho certeza que eles vão aproveitar ao máximo e quando estiverem lá na Itália tomando um belo vinho vão lembrar de mim, amo vocês nos mantenham informados de tudo que acontecer. Beijos e até amanhã.

Naianara disse...

Dia 24 de janeiro de 2012, eles chegaram oba oba oba. Brindamos com Freixenet a R$10,00 uma maravilhosa sopa de saquinho, meu cunhado encantado com a cidade, com os preços, com as pessoas, com a nana, enfim eles estão felizes demais. Boa noite durmam bem e amanhã me chamem que quero saber como foi o dia, aqui são 22:22, daqui a pouco vocês estão acordando, durmam bem. APROVEITEM, EU AMO MUITO VOCÊS!!!

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